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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27637: Manuscrito(s) (Luís Graça) (281): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte V: O Zé Pitucas, aliás, o Zé Ançã (1937-2002): "Ou dás-me a navalha, ou nunca mais te falo"...


Porto > c. 1918 > "Uma foto lindíssima do meu pai, embarcado com 12 anos com o cão ao colo por trás da boia do Pátria, o navio em que embarcou. O capitão era o pai do Mário Castrim, o cap Fonseca, de Ílhavo."

Fotos (e legendas): © José Amtónio Paradela (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Capa do livro "A Rua Suspensa dos Olhos" de Ábio de Lápara (edição de autor, José A. Paradela, Aveiro, 2015, 164 pp.)...Ábio de Lápara é o pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor



1. Por cortesia de autor, ainda em vida, pela grande amizade que nos ligava um ao outro (tratávamo-nos por "manos"), e pela paixão que o nosso blogue dedicava à  epopeia da pesca do bacalhau (que chegou a ser alternativa à guerra colonial), transcrevemos, em tempos em três postes, o capítulo 7 (A viagem “O Mar por Tradição”, pp. 83-107), do livro "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara (edição de autor, Aveiro, 2015).

Era também irmão do Tibério Paradela (1940-2021)  um "lobo do mar", capitão da marinha mercante.

O Zé António, ilhavense, filho e neto de marinheiros, evoca e descreve com enorme ternura e talento a rua onde nasceu e cresceu, e onde conheceu algumas das figuras humanas da sua terra, que marcaram a sua memória e o seu imaginário ...

Todos tivemos uma Rua Suspensa dos Olhos, afinal a rua da nossa infância, a rua onde nascemos e crescemos. Falo da nossa geração, que ainda nasceu em casa, de parto natural, com dor... E ainda teve o grande "privilégio" de  brincar na rua com os outros meninos e meninas.  No tempo em que não havia creches, nem infantários, nem jardins de infancia e a vida vivia-se na rua: assavam-se os carapaus no fogareiro a carvão na rua,  namorava-se á janela, não havia vida privada,  o escrutínio era público,  frequentávamos a casa uns dos outros, etc.

Nesses três postes, e com a devida autorização do autor, publicámos o relato da sua viagem de seis meses na safra do bacalhau, nas costas da Terra Nova e da Groenlândia, quando ainda adolescente, aos 17 anos, em 1954, e como estágio final do curso da Escola Profissional de Pesca, em Pedrouços, Lisboa, é chamado para embarcar e fazer "A Viagem", por antonomásia.

Foi  uma experiência que o marcou para o resto da vida, não só pela dureza das condições de vida a bordo e a capacidade de resiliência como pela aventura maritima, a descoberta e o reforço da camaradagem, a solidariedade e a amizade entre a tripulação (marinheiros e pescadores). Tal como a a tropa e guerra, no nosso caso. 

O Zé António, também como bom ilhavense, fez depois o serviço militar na Armada,  numa altura em que a Marinha não precisava de muitos marinheiros.

A vida deu, entretanto, outras voltas e o autor não seguiu o destino dos seus antepassados... Aluno brilhante, acabou por ganhar uma bolsa de estudo, ficar em Lisboa e poder aceder à universidade, tornando-se depois  um nome de referência da arquitetura e urbanismo em Portugal. 

Entraria para o curso de arquitetura na Escola Superior de Belas Artes, no ano letivo de 1960/1961; fundou e geriu a empresa PAL - Planeamento e Arquitectura, com sede em Lisboa;  deixou obra por todo o país, com destaque para a Região Autónoma da Madeira-

Conheci-o depois do 25 de Abril. E começámos a conviver quando os nossos filhos eram pequenos.  

Em 18 de fevereiro de 2023 fui a Ílhavo,  despedir-me dele e ajudá-lo a "cambar" o rio da morte, fazendo, simbolicamente, o papel do barqueiro Caronte, da mitologia grega. 

Em sua homenagem, recomeçámos a publicar mais excertos do seu livro "A Rua Suspensa dos Olhos" (*)


Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos" - Parte V: Zé Pitucas, aliás, o Zé Ançã...

por Ábio de Lápara / José António Paradela
(1937-2023)

Era um objecto histórico, um xaile de lã muito resistente, de contacto áspero, como os cobertores serranos.

Com cadilhos curtos e tessitura de motivos geométricos em cor de bronze sombrio, essas características tornavam-no ímpar no panorama do antigo trajar ilhavense onde predominava o preto absoluto.

Estava posto sobre os joelhos do meu pai, que tinha então cerca de noventa anos de idade.

Sentado no sofá da sala, agora de cadeiras vazias em torno da mesa redonda onde a ausência mais notória era a da minha mãe, sua companheira de cinquenta anos, ia falando com voz pausada, encadeando as suas estórias na história da sua vida.

Enquanto o ouvia relembrando um passado de retratos antigos, encadeando as doçuras e agruras de uma vida de transumante cigano do mar, que foi a que teve a partir dos doze anos, ia olhando aquele xaile e meditando no silêncio dos objectos impossibilitados de narrar as suas próprias lendas, apesar das marcas que o tempo lhes imprimiu: o seu código ontológico à espera de um olhar...

Aquele xaile da minha avó materna, cuja história é anterior às minhas recordações, já tinha embrulhado a minha mãe e depois os seus três filhos. Nos últimos anos, alguns netos, mas resistiu com bom aspecto até aos dias de hoje, oferecendo ainda algum conforto ali pousado nos seus joelhos.

A avó, nascida a uma dúzia de quilómetros do mar, onde as gaivotas já tinham cedido o canto ao piar dos mochos nos pinhais da Gândara, tinha descido à vila para casar com um marinheiro de boa figura, com farto bigode de aventureiro.

Talvez aquela distância explique a origem da beleza estranha do xaile, mas não adianta nada ao entrecho da estória daquele amor que se revelaria trágico, porque acabou marcado pelo ferrete do abandono e do esquecimento:

Uma avó, viúva de vivo, e uma filha desde aí marcada por uma profunda compreensão, quase religiosa, da falência dos sentimentos alheios...

Não conheci os meus avós maternos e a minha mãe era, como se compreende, muito avara do seu passado tão doloroso. Sobraram apenas algumas fotografias pouco sugestivas e algumas raras alusões suas a factos antigos, para suportar um fio narrativo plausível.

Pelo contrário, o meu pai, moldado por matinais aventuras de velas ao vento, falava apesar da sua idade, como um rapaz, de factos que tinham setenta ou oitenta anos mas que pareciam ter-se passado há pouco tempo. Tinha visto partir quase todos, ou todos mesmo, os amigos da sua geração, e agora sentia-se emigrado no futuro, mas aceitava isso com a consciência de que não era ele o verdadeiro culpado.

Acabada a conversa naquele dia, encaminhei-me para a porta, seguido por ele, que sempre vinha ver-me desaparecer na esquina da rua, de braço no ar dizendo adeus.

Escurecia.

Ao sair deparei-me com a silhueta de um homem que passava arrastando um pouco os pés, pelo meio daquela rua de reduzido tráfego, sem medo de ser atropelado.

Reconhecendo a minha voz enquanto me despedia do meu pai, suspendeu o seu passo hesitante.

 
— Estás por cá, Ábio? Vieste à Rua do Lá Vem Um?

Era o Pitucas na sua voz calma, inconfundível. Tinham passado muitos anos, mas pela forma da pergunta, evocando o tropo infantil da nossa rua, parecia que tínhamos estado juntos no dia anterior. 

Achei-o um pouco cansado porque procurou com o olhar um local onde se pudesse sentar. Mas a rua já não era confortável como antigamente. Os poiais à frente das casas já não estavam lá.

Apenas um minúsculo lancil separava o asfalto do pavimento, das suas paredes, apoiadas em lambris de granito e muitas vezes forradas de azulejo.

Foi a uma delas que nos encostámos.

 
— Lembras-te quando fugimos da cobra que queríamos matar, na agra da Lagoa?

Pronto! Num segundo, tínhamos recuado meio século dando de barato todos os dias intermédios.

Respondi-lhe:

 
— E tu, Zé... lembras-te porque é que estivemos estes anos todos sem nos falarmos?

Já não se lembrava muito bem. Fora uma birra de miúdos de treze anos, num daqueles momentos de viragem das vidas, em que os caminhos até aí comuns, divergem sem qualquer encontro marcado no futuro.

O Zé Pitucas morou sempre naquela rua tal como eu: a nossa Rua Suspensa dos Olhos!

Pelo menos desde que me lembro, porque nascera no Brasil e viera ainda muito pequeno com os pais para aquela casa.

Eram quatro irmãos em que os rapazes ficavam no meio e as meninas nos extremos. O Zé era da minha idade, o Ricardo um pouco mais velho.

Na casa dele, com mais algum desafogo económico, as revistas de quadradinhos eram mais abundantes que na minha.

Além disso, a casa tinha um grande quintal onde podíamos brincar livremente sem medo de partir os vidros às vizinhas com as pedras disparadas das nossas fisgas, a que chamávamos atiradeiras.

Um galinheiro enorme permitia-nos hipnotizar as galinhas deixando-as a dormir com a cabeça debaixo da asa e roubar alguns ovos para uma gemada à hora da merenda. A mãe, que passava muito tempo na loja do antigo mercado, nunca daria pela sua falta.

Muitas tardes da primária foram por ali vividas treinando a pontaria da fisga, e imitando aventuras de final feliz, decalcadas do "Mosquito", esse monumento desenhado, dos primórdios da banda desenhada.

Crescemos um pouco comendo os primeiros figos de São João, na figueira encostada ao muro. Ao fundo do quintal, um ribeiro corria para o seu destino através das vessadas até chegar à Ria, na Malhada - não sem primeiro lavar centenas de "maltas" de roupa das modestas famílias da rua de Alqueidão   
— para acabar movendo a azenha, cuja roda motora feita de madeira forrada de verde musgo, despejava as últimas gotas de água doce já dentro da água salgada da Ria.

Por essa altura, as vessadas cederam lugar à Avenida tal como já tinham cedido ao Jardim, o que permitiria construir diversos prédios. Um deles foi o Atlântico Cine Teatro, implantado sobre o terreno do quintal onde esboçávamos todas as estratégias e com isso se foi também o nosso parque de aventuras.

A alternativa seria alargar horizontes. À nossa disposição estavam as agras da Lagoa e da Coutada que passámos a percorrer mais insistentemente para nascente e, sobretudo, para poente da estrada de Aveiro, a agra da Coutada.

O Zé era um miúdo de pequena estatura, mas era dono de uma argúcia e uma habilidade
— que punha em tudo quanto fazia — que o conduziam ao sucesso de modo impressionante.

A pontaria dele com a fisga era quase infalível, e a sua intuição para descobrir os segredos dos pássaros era inigualável.

Fruto das nossas explorações, quase posso garantir que sabíamos todos os ninhos e tocas da bicharada desde a Coutada até à Balada, toda uma agra onde encontrávamos suprimentos para compridas estadias quando a fome atacava.

Este último local, a Balada, foi um nome só nosso, só dos aventureiros da nossa rua, que desapareceria da memória colectiva com a transformação ocorrida naquele local, nos anos sessenta do século vinte, após a fatal construção das casas hoje existentes.

Porque a Balada era o sítio de todos os sortilégios. Era o final da rua antes de atingirmos a Malhada, com o seu esteiro, arremedo portuário de bateiras e moliceiros, e as marinhas de sal, onde a faina tinha a dureza dos cristais ofuscantes que produzia.

Um troço de calçada empedrada com calhau rolado, que começava na chamada Fonte de Alqueidão ou dos Bastos, refrigério de marnotos que ali enchiam as suas bilhas e cântaros de fresca água, e se prolongava até à azenha do ti Moleiro, cuja farinha de milho engrossava a sopa de feijão de toda a rua.

Esse troço de calçada assentava sobre uma linha de água permanentemente alimentada pelas nascentes naturais de um e outro lado, que davam origem à Fonte e a todo um biótopo onde, nas valetas laterais da calçada, habitavam rãs e tritões entre a erva patinha, mas sobretudo enormes lesmas pretas com mais de um palmo de comprimento.

Nesse tempo, eu não sabia o que era um biótopo. Sabia apenas que os álamos e os loureiros abraçados por um silvado quase impenetrável, dispostos em ambos os lados do caminho, o transformavam num túnel verde, escuro e fresco onde todos os mistérios se revelavam a partir do sol posto, hora a que os raios luminosos deixavam de penetrar no seu interior

Sempre que isso acontecia, pela delonga da pesca ou da brincadeira na Malhada, aqueles extensos metros eram percorridos com pés de Mercúrio: tinham asas!

E ainda corriam mais, quando chegados ao topo da pequena ladeira final, os cães do Rebocho, alertados pelo arfar da corrida, se lançavam a ladrar sobre nós.

A primeira lâmpada da rua, colocada na parede do solar de Alqueidão, apesar da sua luz frouxa, dava outro alento às nossas tolhidas almas e os cães costumavam desistir aí da sua perseguição.

Os prazeres retirados das nossas aventuras tinham muito a ver com a constituição e a manutenção dos segredos, especialmente no caso do conhecimento dos ninhos, e da observação cuidadosa da sua evolução: os ovos, as crias... O vôo!

Na verdade se fôssemos indiscretos nessa observação, os progenitores abandonavam o ninho e lá se ia o nosso património.

Ninhos de melros, verdilhões, pintassilgos, trigueirinhas, carriças, e mesmo guarda-rios nas beiradas dos esteiros, eram o recheio do nosso cofre secreto que espreitávamos cautelosamente avarentos do nosso pecúlio.

Que me lembre, só uma vez destruímos um ninho. Um ninho de pardal na rama de um alto pinheiro bravo, na Coutada. Inacessível pelos meios de que dispúnhamos, o desespero levou-nos a empunhar as atiradeiras. Pouco depois caíam do alto, seis gordos pardais quase prontos para voar! Não recordo o seu fim, porque era hábito tentarmos salvar as aves incapazes de voar, do "céu dos pardais" que era, como sabíamos naquele tempo, a barriga dos gatos.

De resto, tínhamos um cemitério para os nossos animais no fundo do quintal, onde mimávamos os funerais dos humanos, com crucifixo e todos os aprestos necessários.

Já a fisga, desenvolvia outras reacções. O instinto da caça! Aí, a pontaria era crucial e a morte estava presente em cada acto. Matar à distância não era cruel, era glorioso!

Depois das colheitas, setembros cálidos, ninhos desertos de ovos e crias, vinha a caça a pitas e lavercas, pontaria apurada nas fisgas, e ratoeiras armadilhadas com lagartas vivas, extraídas dos canoilos do milho já colhido, a servir de isco cremoso e irresistível para uma ave esfomeada.

Os pruridos viriam mais tarde com as tentativas de entendimento dos valores da vida, do sagrado e da ética.

Nas brincadeiras de rua, o Zé era sempre o mais apurado. Dono de um pião especial, de coroa achatada, que manuseava de modo malabarístico, a sua pontaria era certeira novamente, beliscando o adversário a cada lançamento.

Pião jogado, pocelo marcado!

Nas "emendinhas", habilidades “futebolísticas” em que uma erva de raíz fasciculada servia de bola saltitando de um pé para outro, atingindo centenas de toques sem que a erva tocasse o chão, ele era o maior.

Mas a pergunta que o Zé me lançou naquele dia ao fim da tarde, quando me reconheceu, refere-se a uma cena em que fomos caçadores caçados!

Na agra da Lagoa, no fim de uma tarde de verão, avistamos no fundo de uma cova com cerca de um metro de profundidade, uma cobra de cor verde, bastante corpulenta.

Isso de cobras era o nosso prato favorito, porque constituíam um troféu de prestígio lá na rua! Costumávamos usar uma cana bifurcada na ponta para prender esses répteis, mas ali, no inesperado daquela situação, estávamos desequipados. Apenas as fisgas, e pedras bastantes, como amêndoas de Páscoa, sobrecarregando as algibeiras dos calções até fazer saltar os botões onde prendiam as alças.

Começámos a disparar a metralha letal acumulada nos bolsos, sobre aquele bicho, objecto de ódios ancestrais. Sentindo-se encurralada, a cobra começou a movimentar-se em círculo, com grande velocidade, chegando mesmo a elevar-se do fundo da cova, silvando de modo assustador deixando-nos perplexos com semelhante desatino.

Aí... pernas para que te quero?! 

Iniciámos uma fuga apressada e deixámos o réptil em paz, embora soubéssemos que a sua mordedura não era venenosa. Mas o respeitinho é muito bonito e o medo mamado com o leite impôs-se na circunstância!!!

Nunca contámos o fracasso a ninguém!

Um dia o meu pai ofereceu-me uma pequena navalha de duas folhas, com o cabo revestido de madrepérola. Tinha-a trazido de Lisboa e sabia quanto eu a estimaria.

Uma navalha era um instrumento de valor incalculável nas mãos de um capitão das agras. Por tudo quanto permitia executar: fisgas, atira-bagas, armadilhas de cana para apanhar pitas e lavercas... entre outras inumeráveis coisas.

Era uma manhã de sol radioso! Combináramos encontrar-nos no aterro da Avenida, para mais uma aventura pela nossa agra amada.

Encantado pela navalha, o Zé lançou-me um ultimato:

 
— Ou dás-me a navalha, ou nunca mais te falo...

Perplexo, separei-me sem dizer uma palavra. Isto, no fim de um certo outubro em que eu faria catorze anos.

Passados poucos dias iniciei uma nova fase da vida. Impossibilitado de estudar por falta de meios financeiros em casa, fui trabalhar e, logo de seguida, arranjei uma namorada para aliviar o desgosto!

Acabaram aí, definitivamente, as nossas aventuras descomprometidas. Comecei então a voar noutros céus, onde os pardais eram apenas uma saudade.

O pouco dinheiro que ganhava,  permitia-me frequentar o cinema e comprar livros de aventuras que me transportavam para outros mundos até aí vedados: desertos de secar a boca, florestas de úmidas turfeiras e rebentos espinhosos, mares de monstros insólitos e temporais desfeitos e homens de rija têmpera mas também covardes de toda a espécie! Herois de nomes inesquecíveis, espalhados em páginas e páginas onde os acompanhava atolado em emoções desmedidas!

Pouco faltava para sair de Ílhavo... definitivamente.

Quando aí voltei a pousar com mais calma, com muitos romances lidos e algumas aventuras vividas na primeira pessoa, muitos anos tinham passado e eu perdera tudo o que acontecera por ali nesse entretempo.

Algumas intervenções pontuais,  com antigos amigos em curtos períodos de férias, não chegavam para colar os cacos dos destinos outrora separados.

O nosso reencontro naquele dia foi muito reconfortante mas infelizmente tardio.

O Zé Pitucas, após toda uma vida dedicada ao desporto em Ílhavo, que elevou às maiores glórias nacionais do basquetebol, tinha sido vítima de um AVC.

Ainda estive com ele mais duas vezes, até que um dia me chegou a notícia da sua morte. Cedo de mais.

Os amigos fizeram-lhe uma grande e sentida homenagem, e editaram uma sua biografia. Ao lê-la,  tive a noção clara do que tinha perdido. Mas a ubiquidade não é um dom que me tenha bafejado.

Verifiquei contudo que lhe faltava este capítulo, talvez pouco significante no contexto da sua vida adulta, mas tenho a certeza de que ele gostaria de o ver ali...

Um tempo de vários anos de infância, em que após o pequeno almoço abalávamos campos fora, sozinhos, à cata da nossa aventura quotidiana.

Um tempo em que ele não era conhecido por Zé Ançã (**), mas por Zé Pitucas, o campeão das "emendinhas".

Fonte: Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara (edição de autor, Jose A. Paradela, Aveiro, 2015, pp. 51-64).

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Último poste desta série > 1 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27590: Manuscrito(s) (Luís Graça) (280): Aos meus amores, amigos, companheiros e camaradas, votos de Bom Novo Ano de 2026 que, dizem, aí vem!

(**) Vd .Facebook >  Ílhavo Antigo > 26 de abril de 2024 > José Eugénio Gomes Ançã:

(...) Filho de José Ançã e Maria Celestina Gomes, era conhecido por Zé Ançã. Notabilizou-se como treinador de Basquetebol do Illiabum Clube. 

Humilde e simples, tinha para com os jogadores uma forte relação, sendo muito exigente e sobretudo um excelente disciplinador. 

Começou como atleta do Clube e mais tarde como treinador, tendo conquistado os seguintes Títulos: Campeão Nacional de Infantis (1962/63), Campeão Nacional da 2ª Divisão (1963/64) e Campeão Metropolitano de Juniores (1964/65). Pelos 50 anos de associado do Clube, recebeu o Emblema de Ouro. 

Faleceu em 30-03-2002 com 65 anos.(...)

domingo, 14 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27529: Manuscrito(s) (Luís Graça) (278): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte IV: O Ester, o "menino Zeca" que era mecânico de aviões na base de São Jacinto

ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor
(Ábio de Lápara era o pseudónimo literário)

Capa do livro "A Rua Suspensa dos Olhos" de Ábio de Lápara (edição de autor, José A. Paradela, Aveiro, 2015, 164 pp.) (*)...

Ábio de Lápara é o pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor
 

1. Por cortesia de autor, ainda em vida, pela grande amizade que ele nutria por mim e eu por ele (tratávamo-nos por "manos"), e pela paixão que o nosso blogue dedicava à  epopeia da pesca do bacalhau (que chegou a ser alternativa à guerra colonial), transcrevemos, em tempos em três postes, o capítulo 7 (A viagem “O Mar por Tradição”, pp. 83-107), do livro "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara (edição de autor, Aveiro, 2015).

O autor, ilhavense, filho e neto de marinheiros, evoca e descreve com enorme ternura e talento a rua onde nasceu e cresceu, e onde conheceu algumas das figuras humanas da sua terra, que marcaram a sua memória e o seu imaginário ...

Como já escrevemos em poste anterior, "um simples olhar de relance pelo índice do livro, de 164 pp., permitia logo adivinhar quanto humanidade, ternura, inocência, traquinice, generosidade e poesia havia na Rua Suspensa dos Olhos, afinal a rua da nossa infância, a rua onde nascemos e crescemos. Falo da nossa geração, que ainda nasceu em casa, e brincou na rua. 

Nesses três postes, e com a devida autorização do autor, publicámos o relato da sua viagem de seis meses na safra do bacalhau, nas costas da Terra Nova e da Groenlândia, quando ainda adolescente, aos 17 anos, em 1954, e como estágio final do curso da Escola Profissional de Pesca, em Pedrouços, Lisboa, é chamado para embarcar e fazer "A Viagem", por antonomásia.

Foi  uma experiência que o marcou para o resto da vida, não só pela dureza das condições de vida a bordo e a capacidade de resiliência como pela descoberta e reforço da camaradagem, solidariedade e amizade entre a tripulação (marinheiros e pescadores). Tal como a a tropa e guerra, no nosso caso. (O Zé António, também como bom ilhavense, fez depois o serviço militar na Marinha, numa altura em que a Marinha não precisava de muitos marinheiros.)

A vida deu, entretanto, outras voltas e o autor não seguiu o destino dos seus antepassados... Aluno brilhante, acabou por ganhar uma bolsa de estudo, ficar em Lisboa e poder aceder à universidade, tornando-se depois  um nome de referência da arquitetura e urbanismo em Portugal. (Entraria para o curso de arquitetura na Escola Superior de Belas Artes, no ano letivo de 1960/1961; fundou e geriu a empresa PAL - Planeamento e Arquitectura, com sede em Lisboa;  deixou obra por todo o país, e em especial na Região Autónoma da Madeira).

Conheci-o depois do 25 de Abril. E começámos a conviver quando os nossos filhos eram pequenos.  Em 18 de fevereiro de 2023 foi à sua terra despedir-me dele.

Em sua homenagem, recomecassámos recomeçámos a publicar mais excertos do seu livro "A Rua Suspensa dos Olhos" (*)


Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos" - Parte IV:   O Ester, o "menino Zeca", que era mecânico de aviões na base de São Jacinto

por Ábio de Lápara / José António Paradela
(1937-2023)


Cada um está só sobre o coração da terra
Trespassado por um raio de sol:
E de repente é noite


Salvatore Quasimodo


O ESTER

(...)  A propósito de plásticos, começo por contar hoje a estória de um homem que, para alguns dos que ainda são vivos cá pela rua, parece constituir um ícone típico da terra.

A minha casa, confinava num dos seus lados com um beco de largura apenas suficiente para deixar passar uma carroça de bois para os aidos e as agras que existiam a norte.

Ao fundo do beco, um afastamento maior entre as casas dava forma a um pequeno largo que permitia à garotada organizar algumas brincadeiras. Ali se jogava a macaca, o botão, o salta-carneiro, o uma na muna… e o pião, claro!

Quando começa a estória que vou contar, eu era muito pequeno. Devia ter uns quatro ou cinco anos.

Franzino como o Polegarzinho, a senhora Ester, dona da casa ao fundo do beco e conhecida a contragosto como Ester Manca por ter sido atingida num pé por uma cana de foguete, tinha por hábito pegar em mim quando passava à nossa porta, e colocar-me dentro do cesto de verga em que costumava transportar os frutos do seu quintal. Indescritível é o prazer que isso me dava, provocando-me arrepios!

Era amiga da minha mãe e aproveitava para dar dois dedos de conversa antes de reentrar em sua casa.

Falava do filho único que tinha e que estudava mecânica na aviação, em São Jacinto, lá para os lados da Barra. Tratava-o por Zeca.

 —  O meu menino Zeca —  dizia ela.

E, após a cavaqueira, lá seguia comigo dentro do cesto que colocava sobre a cabeça, até ao quintal onde quase sempre havia fruta para me oferecer.

Era o tempo da segunda guerra na Europa. Os biplanos de treino de cor amarela, vindos da Base Aérea, sobrevoavam constantemente os céus da vila, executando cabriolas admiráveis.

Os aviões nesse tempo davam pelo nome de aeroplanos. No meu linguajar de então, eram os "ráplanos", e era aquilo que eu queria fazer quando fosse grande!

Nos fins de semana o “menino Zeca” vinha a casa. Era a alegria da mãe, orgulhosa do seu menino que dizia ser bastante inteligente e bom aluno, mas também do pai, o senhor Gaivota, homem possante e mais reservado, cuja memória está mais esbatida no meu nevoeiro.

Para mim eram momentos de deleite. O “menino Zeca” tinha um pouco por todo o lado, molhos de revistas sobre aviões, paraquedas, bombas enormes e outros artefactos de guerra que me ia mostrando folha a folha. Explicava-me tudo aquilo tim tim por tim tim, como se eu pudesse entender, tal era a atenção que me via dedicar ao assunto.

Em manhãs de bom tempo pedia à minha mãe para me levar a passear com ele, ora pelo jardim da vila, ora pelas agras onde ia conversando sobre ventos e marés, parando de vez em quando para observar as evoluções dos biplanos de treino, voltejando sobre as nossas cabeças.

Um dia fez para mim um papagaio de papel, talvez o meu primeiro papagaio de papel, maravilha voadora!

E, como papagaio de papel sem fio não voa, foi buscar um cordão grosso que desfiou sabiamente em fios mais finos explicando-me:

—   É um cordão daqueles que viste nos paraquedas das revistas. Por dentro tem estes fios tão finos mas tão resistentes que não consegues parti-los!

Experimentei. Era de facto impossível. Pelo menos com a força que eu utilizava para partir a linha número cinquenta da máquina de costura da minha avó, quando ela me pedia que lhe enfiasse a linha na agulha por ter a vista já cansada.

—  É fio de nylon, uma invenção dos americanos  — disse-me.

Nunca mais esqueci o nome. Esta terá sido a minha primeira incursão no mundo dos plásticos!

Um dia, que não consigo localizar com precisão, por tantos os anos que já passaram, a conversa da senhora Ester com a minha mãe rodeou-se de tons velados e suspiros profundos. A partir daí a minha mãe aconselhou-me a não passear pela agra com o "menino Zeca", porque existiam muitos poços de rega desprotegidos e eu poderia cair nalgum deles.

Não entendi muito bem aquela conversa porque os poços já lá estavam antes, mas percebi que algo de estranho se passava.

Embora continuasse a encontrar-me com o “menino Zeca” e a gostar muito da sua companhia, não voltei mais à agra e fui reparando que, com o passar do tempo, ele assumia um ar cada vez mais indiferente, ensimesmado. Tinha dias melhores e outros nem tanto. Passou a estar mais tempo em casa e menos na aviação.

Passado algum tempo foi internado num hospital psiquiátrico e perdi definitivamente os seus pacientes e minuciosos ensinamentos.

Anos depois voltou ao jardim. Lembro-me então de uma hierática figura de fala-só, envergando um sobretudo azul, discursando sobre aviões, talvez a única paixão da sua vida.

Mais tarde os pais morreram e o menino Zeca continuou sozinho tratando de si.

Eu deixara Ílhavo há muito tempo e só esporadicamente o encontrava nas raras férias que por ali passava. Ali estava ele sempre de pé, falando só, no meio do jardim, junto do obelisco onde figuram os nomes dos mortos ilhavenses na Grande Guerra.

Muitos anos depois, tive de deslocar-me de Lisboa a Sesimbra por motivos profissionais já esquecidos. No regresso, no meio de uma rua estreita do antigo burgo, uma silhueta que me pareceu familiar, falava sozinha.

Parei o carro e aproximei-me. Em poucos segundos um corrupio de imagens desfilou por mim adentro, perplexo por aquele encontro fora do contexto habitual, a trezentos quilómetros da nossa vila natal.

Lá estava o “menino Zeca”, agora mais idoso, mas falando sempre de aviões. Olhou um segundo para mim e continuou o seu discurso que dispensava interlocutor.

Nó na garganta, recuei uns passos acautelando a fronteira. Vivíamos em planetas diferentes, em mundos aparentemente paralelos cujas órbitas se tinham cruzado apenas nas imagens sépia, das revistas amarelecidas dos anos quarenta. Tinham passado cinquenta anos desde que ele me fizera a minha primeira estrela, lançada aos ventos da agra, no meio dos “ráplanos”. Uma pequena eternidade!

O último familiar que tinha, para lá o levara. Restos da diáspora ilhavense ainda presentes naquela terra de pescadores. Desde aí, nunca mais ouvi falar dele. Esta foi a última imagem que me restou.

Mas há dias, no Facebook, alguém relembrava essa pacífica figura do jardim de ílhavo, ironicamente falando de aviões e de guerra: o Ester, nome pelo qual ficou conhecido o menino de sua mãe, o meu "menino Zeca".

Costa Nova, 31/10/2011

(Seleção, revisão/ fixação de texto,  título: LG)
__________________

Nota do editor LG:

domingo, 9 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27404: Manuscrito(s) (Luís Graça) (278): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte III: A Cila Paciência


S/l > 1955 > Alguns dos bravos marinheiros e pescadores que embarcam no "Lousado" em abril de 1955. Na segunda fila, ao centro, o terceiro a contar da esquerda, assinalado a amarelo, é o nosso querido e saudoso Zé António Paradela...

Foto (e legenda):  © José António Paradela (2015). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


O Verde 

No dia em que, “verde”, me puseram entre tábuas
De um catafalco a que chamaram bote
E me disseram: "Salta, esquece as mágoas"…
Senti, looongo, na garganta um garrote!

Primaveril, meu coração bateu mais forte,
Ao cair na onda junto ao costado,
E remei, como quem enxota a morte,
De dentro do meu “fato oleado”.


“Senta-te, Zé, e rema enquanto a força durar!
Tens pão e peixe, e tens também café quente!
Segue-me quando o meu búzio roncar…”

Disse o “maduro”, comovido, ao ver-me imberbe,
Estendendo as linhas na corrente,
Junto à fria palidez do terrível icebergue.


In: Ábio de Lápara -"Santinhas de Apegar: Textos Poéticos" (2017, ed. de autor), pág. 75.

Nota de LG: "Verde" é o pescador ou marinheiro da frota branca, a frota bacalhoeiro, embarcado pela primeira vez; equivalente a "periquito" na tropa e na guerra da Guiné


 

Capa do livro "A Rua Suspensa dos Olhos" de Ábio de Lápara (edição de autor, José A. Paradela, Aveiro, 2015, 164 pp.) (*)...


Ábio de Lápara é o pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor
 


Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos" - Parte III: A Cila Paciência


por Ábio de Lápara / José António Paradela
(1937-2023)


Chamo-me Ábio e sou uma criança de aspecto frágil e olhos grandes, com vontade de aspirar nuvens ou rasgar horizontes. Passo o tempo nas margens da água a correr atrás de arco-íris que nunca alcanço. Por isso gosto das tintas pastel e tenho uma maneira muito minha de olhar para as coisas.

Nasci gordinho, mas ultimamente o meu corpo afilou. Por aqui, os miasmas do vale atacam duro, com maleitas inomináveis. Dizem os sobreviventes:

Teria feito 88 anos no passado

dia 30 de outubro . Nasceu em
Ílhavo em 1937. Morreu no hospital,
em Aveiro, em 2023. Membro da
Tabanca Grande. Fez a tropa
na marinha de guerra e antes,
em 1955, pesca do
bacalhau, seguindo os passos
dos seus avoengos.



 — Foi um malzinho desconhecido que o atacou...

O fantasma da tísica perfila-se teimoso há muitos anos, matando músicos e poetas cujas obras tiveram o condão de transformar o bacilo em agente do romantismo. De si próprios e dos seus personagens.

Porém os pobres que cá moram não escrevem; e de música... só cantam de ouvido. Sendo assim, a tísica é para eles um modo natural de acabar os dias. Talvez à maneira curta, mas tão natural que continuam a conviver entre todos, no meio da tosse e das hemoptises:

— Coitadinho! Já não falta muito para entregar a alma ao criador... — dizem os que vão ficando.


E enquanto tarda a invenção dos remédios para esta secular maleita, alguns surtos de pestes estranhas transformam o cemitério em jardim, segundo o antigo costume deste povo, que para o efeito cultiva longos canteiros de sécias e crisântemos nas bermas dos seus quintais.

Por aqui, meus amigos, a morte está presente no quotidiano, na sala de cada um, onde os vizinhos e os amigos se vem despedir e carpir, até que o padre venha encomendar a alma e o caixão se feche para ser transportado à tumba húmida... Nada de trágico, pois a vida continua calmamente no dia seguinte.

Os que resistem, são o garante da continuidade do Beco e do Pátio dos Ressoeiros. Entre esses vai ficar este vosso amigo, para contar a estória ao fim de tantos anos.

Mas ficou sobretudo uma mulher. Uma mulher chamada Cila Paciência. De figura muito seca, vestida sempre de negro, com filhos de nomes medievais: Victor, Joaquim, Deolinda, António... Nada de Melissas nem de Vanessas.

Era casada nesse tempo com um homem e com um gato. Ambos amigos do alheio. Ele chamado José... José "Ressoeiro". O gato, de cor parda, tinha um nome que hoje nos parece óbvio: "Tareco".

José passou grande parte da vida na cadeia: entrava por um ano, saía por algum tempo, que dedicava à chincha (#) na Ria, e pouco depois já se tinha metido em zaragatas ou fizera mão baixa a umas ferramentas ou outras coisas de insignificante porte... E lá ia novamente para o chelindró, em Aveiro, nos calabouços do Governo Civil, que a guarda republicana não era meiga.

Aí carpinteirava brinquedos de madeira que mandava para os filhos ou para a mulher vender a troco de uns tostões. Pelo final dos anos quarenta, morreu tuberculoso.

O gato seguiu-lhe as pisadas! Aproveitava as distracções dos vizinhos para assaltar as parcas comidas sobrantes ou em vias de serem cozinhadas, apesar da Cila não lhe faltar com os restos de peixe que diariamente trazia da praça. Estava-lhe na massa do sangue. A sua fome parecia insaciável. Bastava que uma vizinha afiasse uma faca na soleira da porta, e aí estava ele, ofegante da corrida, bigodes expectantes, imaginando tripas do peixe amanhado voando da faca para o chão do Beco!

Um dia, um dos ilustres habitantes do pátio, o Ismael — outro nome de cheiro antigo  — que defendia vigorosamente o seu pecúlio alimentar dos ratos e das moscas que com ele cohabitavam, não lhe perdoou subtracções passadas. Vi eu com os meus olhos esbugalhados de criança, numa bela manhã de sol; lembro-me como se fosse hoje. Única testemunha, só agora vos conto, porque se o tivesse feito então, lá se ia a amizade do Ismael como se foi a do gato! E, para além disso, a sarrabulhada que não seria lá pelo Beco!

O "Tareco" foi por ele cruamente apedrejado. Uma só pedra de grande tamanho esmagou o pequeno crânio abigodado contra uma parede. O "Tareco", sem um gemido, correu num ziguezague estonteado na direcção das terras lavradas, para o ignoto sítio onde morrem os gatos vadios e nunca mais lhe pus a vista em cima.

Não sei quantas vidas teve depois, tal como não sei quantas terá tido antes porque os gatos têm direito a sete, mas sei que esta incerteza serviu para aliviar o meu luto. Eis,  pois,  o cenário limite onde todos os seres eram marginais, na fronteira entre a morte certa e a vida permanentemente ameaçada.

Era aí que a Cila se movia lançando pontes aos que estavam em risco de se afogar. A partir apenas da sua força congénita, do seu aço estrutural de rija têmpera, lutando sozinha para sustentar quatro filhos, mais dois sobrinhos órfãos e apoiar ainda vizinhos e animais necessitados.

Naquele pátio, embora fossem bens escassos, ou por isso mesmo, o pão era pão e o queijo era queijo. Não havia classes mais favorecidas nem menos favorecidas. Esses eufemismos foram inventados muito mais tarde porque ali ninguém era favorecido, fosse muito ou fosse pouco. As classes sociais já eram assim quando todos nasceram : ricos, pobres e remediados. E se um dia alguém mais ilustrado lhes dissesse que eram "lumpen", levava por certo uma carga de porrada.

As ideias políticas eram coisas de senhores importantes, como o Dr. Calisto, que morava ali ao lado e lhes pedia que lhe enchessem os pneus do automóvel com a bomba manual! Quando a Pide o levava preso,  ninguém se questionava, porque os céus do Beco estavam inundados de belos sons.

A sobrinha da Cila, cujo nome só por si valia um jardim, Rosa Cravo, cantava permanentemente e em sonora voz, os amalianos fados de então:

— Fado é sorte, desde o berço até à morte, ninguém foge por mais forte, ao destino que Deus dá!...

E o assunto ficava assim resolvido!

O Júlio, o outro sobrinho, envolvido em românticas paixões, morreu novo no meio de hemoptises, depois de ter regressado do sanatório do Caramulo. O mesmo acabou por acontecer mais tarde à Rosa cantora, gasta de amores como personagem de romance em que o real transcendeu a ficção.

Dos filhos recordo o som das vozes nas tardes de silêncio, e a luta pela sobrevivência, onde a escola era um estorvo porque não permitia que fossem ao mato buscar lenha para angariar algum sustento. Quando chegou a idade de verem o "homem das barbas brancas", lá foram.

O mais velho, para a pesca do bacalhau, o mais novo, que fora meu colega na escola primária, para a pesca costeira. Durante anos encontrava-o quando visitava os meus pais, sentado no meio do pátio, fogareiro aceso e garrafa do vinho ao lado:

— Senta-te aqui, Ábio, e come comigo. Peixe assado não tem dono...

O Joaquim, há muito que pesca carapau no Mar da Tranquilidade...

E o do meio? Bem, esse ... Chamava-se António mas era conhecido por "Guinho". Não o recordo brincando, nem sequer consigo imaginá-lo de pé. Uma tuberculose óssea atirou-o para uma cama do hospital e, quando regressou a casa com o corpo forrado de escaras, apenas mexia ligeiramente a cabeça e a mão direita, colocada perto do rosto para conseguir empurrar alguma comida para a boca.

Naquela posição, inerte como uma múmia, sempre envolvido em alvos lençóis  que a Cila nisso não facilitava — o seu catre estava colocado na área comum da casa , frente à porta sempre aberta para que pudesse pedir a ajuda dos vizinhos, e ver quem ia passando no Beco, enquanto ela fazia os leilões do peixe da Ria no antigo mercado da vila.

 — Eh, senhora Rosinha, pode dar-me um copinho de água?! — pedia ele à minha mãe.

O silêncio de então, agora difícil de imaginar, permitia que a sua voz atravessasse o Beco e o pátio e a sua sede fosse satisfeita. Quando chegou a sua hora, morreu. Eu já por ali não vivia.

Estas são estórias que compõem a história da Cila Paciência. Este não era o seu nome, mas era assim que a chamavam. Como no antigo Egito, um nome para responder perante os deuses.

Uma mulher de fraca estatura que carregou as desgraças de uma família inteira, a quem eu lia as cartas que recebia de familiares de Matosinhos, ou do filho ausente na pesca do bacalhau. E que transportava ao colo os filhos dos vizinhos quando a solidariedade se impunha à sua escufenada consciência.

Muito haveria ainda a contar, mas não os quero cansar com mais tristezas. O Rimifon e as Sulfamidas estavam prestes a chegar à farmácia do "Manéuzinho", e a tísica pouco a pouco desapareceu do Beco.

Não sei que idade tinha a Cila quando a atropelaram no regresso do mercado. Inválida, não resistiu à inacção por muito mais tempo.

Deixou uma filha e um filho. O mais velho e a mais nova. Provavelmente, alguns netos.

Soube disto pela minha mãe, há cerca de trinta anos.

Disseram-me há poucos dias, que Domingos Paciência, jogador e treinador de futebol, é neto do seu irmão que viveu em Matosinhos. Aquele de quem eu lhe lia as cartas!


Fonte: Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara (edição de autor, José A. Paradela, Aveiro, 2015, pp. 33-42).


(Revisão / fixação de texto, links, negritos: LG) (**)
____________

Nota de LG:

(#) Pesca na ria de Aveiro com  rede de arrastar para a praia, chamada chincha ou chinchorro.


2. Nota do editor LG > Tuberculose pulmonar  (ou "tísica) em Portugal


Durante o século XX, a tuberculose pulmonar (vulgo,  "tísica") foi uma das principais causas de morbimortalidade em Portugal, refletindo condições sociais, económicas e sanitárias adversas, sobretudo nas primeiras décadas do século. 

Era uma doença associada à pobreza, às más condições de vida, de habitaçáo, de trabalho,  de higiene (pessoal e ambiental), e à subnutrição.E, claro, a um incipiente sistema de saúde.

Tal como a mortalidade infantil. O Zé António nasceu em 1937. E eu em 1947. Nessa altura, a tuberculose era endémica em Portugal, com altas taxas de incidência e mortalidade. Tal como a mort6alidade infantil: morriam 120 crianças, até a um ano, em cada mil, em 1945. 

No existiam tratamentos eficazes:  o isolamento em sanatórios (como o Sanatório do Caramulo, inaugurado em 1921) era a principal medida terapèutica.

Estima-se que, até aos anos 30/40 a tuberculose fosse responsável por cerca de 10% das mortes totais em Portugal.

Irá tornar-se na doença social por excelência, vitimando de preferência os mais jovens e os oriundos das classes trabalhadoras (pescadores e marinheiros incluídos). Chamavam-lhe o mal proletário, mas também peste branca, por analogia com a peste negra. Em meados do Séc. XIX, um em cada dez falecimentos ocorridos no Hospital de S. José era atribuído à tuberculose.

A tuberculose é uma doença infeciosa causada pelo Mycobacterium tuberculosis complex. A forma pulmonar é mais frequente e aquela mais temida pela saúde pública, já que o doente, com tuberculose da via aérea, pode mais facilmente contaminar as pessoas com quem interage, através dos bacilos que liberta através da tosse, da expetoração, da fala, etc,

Com o início da industrialização e o crescimento das cidades, no séc. XVIII, tornou-se epidémica, na Europa, atingindo não só a emergente classe trabalhadora,  assalariada, que veio do campo para a cidade, para trabalhar nas oficinas, manufaturas e fábricas, como também as camadas mais abastadas e as próprias elites.

A doença atingia sobretudo os jovens adultos, nomeadamente trabalhadores, mas não poupava nem príncipes nem princesas... Era  elevadíssima a mortalidade (entre 300 e 400 por 100 mil habitantes, e nalgumas cidades o dobro). Mas, enquanto noutros países, a taxa de mortalidade por tuberculose começou a baixar, lenta mas persistentemente, em Portugal mantinha-se alta nos finais do séc. XIX.

O total de mortes por tuberculose, nos finais do séc. XIX; era estimado em 15 a 20 mil (o equivalente a uma taxa de cerca de 300 a 400 por 100 mil habitantes). Era a segunda causa de morte em Portugal (e vai manter-se nessa posição até à II Guerra Mundial).

Só em 1882 foi identificado, pelo alemão Koch, o bacilo, causador da doença, mas só 65 anos depois, em 1947, é que surgirá um tratamento eficaz, a estreptomicina, isolada em 1943 pelos investigadores A. Schatz, E. Bugie e S.Waksman. A imunização (pela vacinação BCG) só passará, entretanto, a ser usada em grande escala a partir de 1954, ou seja, numa altura em que a mortalidade por tuberculose já estava reduzida a uma pequena parte do que fora cem anos antes (cerca de 400 por 100 mil). A nossa geração foi a primeira a beneficiar desta vacina, um passo enorme dado pela nossa saúde pública!

As primeiras seis ou sete décadas do séc. XX são dominadas pelo “movimento dos sanatórios” que foi em grande parte uma iniciativa alimentada pela filantropia privada, sendo justo destacar o papel da rainha Dona Amélia que soube mobilizar conhecimentos, competências, influências e recursos financeiros para prevenir e combater a tuberculose, criando-se logo em 1899 a ANT – Associação Nacional aos Tuberculosos, com o objetivo explícito de construir hospitais marítimos para crianças, sanatórios de altitude para tuberculosos curáveis, hospitais para internamento de doentes incuráveis e dispensários para diagnóstico prevenção, administração de cuidados ambulatórios e apoio médico-social.

O movimento teve inegável projeção política e social, inaugurando-se logo nos primeiros anos, cinco sanatórios: 2 marítimos como o do Outão (1900) e o de Carcavelos (1902), 1 de montanha (Guarda, 1907) e 2 de planície, o do Lumiar (1912) e do Portalegre. São também abertos os primeiros dispensários, não só em Lisboa (1901 e 1906), como em Bragança (1902), Porto, Faro e Braga (1903), Viana do Castelo (1905)…

O “regicídio” (1908), a implantação da República (1910) e o exílio da família real vão ter, necessariamente, um impacto negativo na ação da ANT, que ganha um novo fôlego nos anos 30. Surgem, entretanto, outras iniciativas, de privados e empresas (como a CP - Caminhos de Ferro de Portugal).

O problema da tuberculose agrava-se com o regresso do Corpo Expedicionário Português que participara na I Grande Guerra. Nesta segunda fase da luta antituberculosa, há uma instituição que merece especial destaque, a Estância Sanatorial do Caramulo, obra de um homem visionário, o médico e empresário Jerónimo de Lacerda (Coimbra, 1889 – Lisboa, 1945). Se,m esquecer, o seu diretor científico (a partir de 1938), Manuel Tapia (um médico catalão fugido a Guerra Civil Espanhola). 

Chegou a ser o maior da península ibérica, com 20 sanatórios, 1100 camas...

Em 1930, registavam-se 13010 mortes, uma cifra brutal!... Em 1939, existiam 34 sanatórios e 83 dispensários, para além de outros estabelecimentos, espalhados por todo país.

O Estado só chama a si a liderança da luta contra a tuberculose em 1945 com a criação do Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos (IANT), mas já no ocaso do movimento. A partir de meados dos anos 50, os sanatórios começam a fechar, mas subsistem graves problemas de recuperação e de integração social, familiar e profissional. Os diversos equipamentos do imenso parque sanatorial construído ao longo de meio século, e alguns com risco de notáveis arquitetos (Cotineli Telo, Raul Lino, etc.) , tiveram destinos diferentes, uma parte tendo sido reconvertido e fazendo hoje parte do nosso parque de saúde.

No séc.  XXI registou-.se uma diminuição de cerca 40% da taxa de notificação e de incidência de tuberculose, com valores de incidência abaixo dos 20/100.000 habitantes desde 2015.



Capa do livro "Saúde", volume nº 29, da coleção "Memória de Portugal: 2 séculos de fotografia" (Lisboa, Atlântico Press, 2020, 64 pp).

O texto do livro "Saúde: o longo caminho do progresso",é da autoria do nosso editor Luís Graça, e foi escrito em plena pandemia, entre 15 de maio e 15 de junho do corrente, "em contrarrelógio". É ilustrado por cerca de meia centena de fotografias (também legendadas por ele).

Índice: Prefácio (de António Barros Veloso): heróis ignorados: pp. 5 | O longo caminho do progresso: pp. 6-7 | Tempo de pioneiros: o grande desafio da saúde pública; pp. 8- 25 | Nascer e morrer: epidemias e doenças da pobreza: pp. 26-43 | Direito universal: Século XX consagra a «saúde para todos»: pp. 44-67.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27383: Manuscrito(s) (Luís Graça) (277): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte II: a rua da minha infància


Capa do livro "A Rua Suspensa dos Olhos" de Ábio de Lápara (edição de autor,  José A. Paradela, Aveiro, 2015, 164 pp.) (*)...

Ábio de Lápara é o pseudónimo literário de José António Bóia  Paradela.  Imagens: arquivo de LG + Matilde Henriques 


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Teria feito 88 anos no passado
dia 30 de outubro (*). Nasceu em
Ílhavo em 1937. Morreu no hospital,
em Aveiro, em 2023. Membro da 
Tabanca Grande. Fez a tropa
na marinha de guerra 
e antes, 
aos 17 anos, 
na pesca do
 bacalhau, 
seguindo os passos
dos seus avoengos.
Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos" - Parte II: a rua da minha infância

por Ábio de Lápara / José António Paradela 
(1937-2023)


A Rua Suspensa dos Olhos. Não sei como foi na vossa rua. Se quiserem acreditar, tudo bem, pois lá na minha os prodígios eram matéria banal. Qualquer um, desde que não fosse bisonho, podia embarcar nas cenas prodigiosas que vou relatar.

Aquela rua estava suspensa de mil olhos novos, acabadinhos de nascer. Eram olhos todos diferentes à primeira vista, porque as suas cores percorriam todo o arco-íris.

E quando aquelas cores já não chegavam para tantos olhos, abatiam-se os tons originais com aguadas de cinzento, ora mais claro, ora mais escuro  
e esses eram, na verdade, os olhos mais bonitos,  normalmente distribuídos 
às meninas a condizer com o tom dos seus cabelos.

Em alguns, a pálpebra superior descia um pouco mais sobre a íris e então diziam-se apaixonados. Noutros sucedia o contrário e chamavam-lhes desconfiados. Noutros ainda, uma ligeira rotação transformava-os em marotos!

Mas na verdade, acabados de nascer, eram sobretudo sedentos de luz, que bebiam em grandes quantidades, e também de formas, ora geométricas ora orgânicas, com as quais construíram uma rua perfeitamente igual á minha: as mesmas pedras, as mesmas portas, os mesmos rostos.

Por isso era chamada Rua Suspensa dos Olhos.

E toda a vida ali, era decalcada da outra, com papel químico em tons que evoluíam do azul celeste até ao rubro dos poentes. Só o tempo era mesmo diferente e bastante mais célere, comprimindo os vagarosos acontecimentos que se esmagavam impreterivelmente no fim do sonho, hora a que os poentes coincidiam com o toque a rebate das mães, cansadas do dia.

Cada par de olhos tinha um dono que tratava deles como pincéis de pelo de marta. As suas pestanas eram sanefas aveludadas, e os nomes dos seus donos fundiam-se por vezes com a geografia da rua: Laide do Canto, Laidinha do Cabeço, Amélia dos Cofinhos, Maria Mangona...

Ou com os nomes de coisas de utilidade discutível numa rua suspensa dos olhos: Benjamim Balança, Manéuzinho Fazenda, Júlio Abóbora, Aníbal Repolho, Rosário Papoila, Helena Caracola...

Ou ainda nomes estranhos, herdados de antigos náufragos arrojados à costa pelos temporais, lá para os lados da Barra: Reinaldo Perqueixo, Carolina Campanta, Laura Vigia, Luz Mastrago, Rosa Nocha, Artur Cagula...

Por ironia do destino, eu, que não era especialmente dotado para jogos complicados, tinha todo o tempo disponível para percorrer ambas as ruas e imiscuir-me em trapalhadas de que me sobraram ternas recordações! (...)


Ilhavo > Biblioteca Municipal > 26 de novembro de 2017 > 

O Zé António na apresentação da sua última obra, publoicada também sob pseudónimo: Ábio De Lápara, "O Livro das Santinhas de Apegar: Textos Poéticos". 

É ainda autor de dois livros de crónicas e pequenas estórias sobre as geografias emocionais da sua infància:  “Uma Ilha no Nome” (2007) e “A Rua Suspensa dos Olhos” (2015)

Foto de Etelvina Almeida (editada, com a devida vénia)


***

Para que percebam o meu tamanho de então, dir-lhes-ei que, o senhor Zé Pereira se sentava, normalmente após o almoço, a colher as amenas réstias do sol de Outono, no passeio da ti Cacilda.

Aí, eu instalava-me confortavelmente com os cotovelos apoiados nos seus joelhos, pés balouçando, ligeiramente levantados do chão, observando com minúcia o seu acto de fumar e todos os preparativos necessários para concluir a operação com sucesso:

1- Tirar uma mortalha do saquinho de função

2 - Enrolar nela o tabaco desfiado e molhar com a língua, numa passagem rápida

3 - Colocar a prisca na boca, em posição expectante de lume

4 - Tirar o catracezílio do saquinho, mais o fuzil e a pederneira

5 - Tanger o fuzil até saltar a faísca que ateia o morrão (a isca) no interior do catracezílio

6 - Soprar aumentando o lume do morrão

7 - Encostar a ponta do cigarro ao círculo incandescente e chupar até sair fumo.


Glória das glórias quando tudo terminava e o fumo invadia, cheiroso, os canais tabágicos do senhor Zé Pereira. Então eu descia dos meus cotovelos para lhe pedir que me deixasse colocar a rolha de cortiça na embocadura do catracezílio e assim apagar o lume.

— Mas quem é este senhor? 
— perguntareis intrigados.

Bem... na minha rua houve alguns casos semelhantes, passados em diversos pontos do mundo, que chegavam aos meus ouvidos nas conversas sussurradas dos adultos.
Este aconteceu na América.

Perante a escassez de recursos lá na rua, os homens punham pés ao caminho e “saltavam” noutros países arriscando todo um passado que tinham construído entre porões de dificuldades. Com isso pretendiam reconquistar a capacidade de sonho que a minha rua já não permitia aos adultos. Veleidades dessas, só na Rua Suspensa dos Olhos, acabados de nascer.

Ao saltarem longe da rua, em terras tão estranhas, o fervor da nova luta iluminada pela luz de outros quadrantes e associada ao jogo do fracasso, levava a que por vezes, na rija aposta que fizeram, saíssem a perder.

Poucos homens resistem à derrota,  como sabemos. Por isso, o senhor Zé Pereira ensaiou esquecer o passado... a mulher, as filhas e tudo o que as rodeava. E isso, durante muitos anos, demasiados anos!

Quando, no auge da angústia, resolveu voltar para dar conta do fracasso
 nem todos o faziam, preferindo morrer longe —  os seus olhos escureceram. De que cor estaria o seu coração?

A partir daí, não teve mais lugar na casa que esquecera e ficou a viver na "casinha", o anexo ao fundo do quintal, onde elas lhe serviam a comida em isolamento afectivo. Olho por olho, dente por dente.

Mas para mim, ele foi o avô que nunca tive, a quem ia apanhar "beatas" no tempo em que os cigarros não tinham filtro, para ele desmanchar e secar ao sol sobre uma folha de jornal, compondo depois novos cigarros.

Pagava-me com afecto
 "toma lá, sacanita"!  e punha na minha mão um rebuçado de açúcar negro e mole, que era o que havia na loja do ti Tomé Pascoal naquele tempo de guerra.

A Rua Suspensa dos Olhos era mais comprida que a outra, porque ali circulava mais gente em passada lenta e por isso os acontecimentos tinham sempre uma expressão diferente. (...)

***

Começava no Alto Badeira e seguia, Alqueidão abaixo, até à Malhada, onde após a pequena Ponte de Pedra Vermelha, se perdia na água que tornava o seu fim indefinível e aberto a todas as aventuras.

Por isso elas contam-se infindáveis e articulam-se como as pedras juntouras daquela pequena ponte em arco de volta perfeita. Estreito arco, ligado ao antes e ao depois, ali só passavam os humanos postos nos caminhos da água. (...)

Os que ficaram em terra com as suas carroças e os seus animais, aprisionaram-na mais tarde numa rotunda infame, porque apenas viram nela o arco.

Esqueceram que sem antes nem depois, sem aqueles estreitos percursos que a ela conduziam, o arco é inútil e sem isso não há caminho para a aventura. Só o todo interessava aos olhos que suspendiam a ponte daquela rua: presa, isolada como está hoje, as suas pedras não têm valor porque já não conduzem ao sonho...

Cada estranho que calhasse passar ali, abria o corredor do mistério, onde pululavam cobras cuspideiras da floresta amazónica, navios fantasma de velas rotas e gritos de pássaros surgidos na bruma, lobisomens necessitados de serem picados, bruxas e curandeiros.

Pendurado do medo, por ali ouvi essas estórias na boca do Cagula, o mais velho e suposto herói de aventuras reais, mesmo que imaginárias.

Mas os prodígios mais prodigiosos, eram os rituais na Rua Suspensa dos Olhos.

Não tinham paralelo em qualquer outra. Ali todos os olhos eram recém nascidos, quer os seus donos fossem novos ou fossem velhos.

Irmanados no seu poder encantatório, os ritos exprimiam-se através de cenários desmesurados como nos dramas ultrarromânticos:

  • o fogo purificador, multiplicado por mais de oito fogueiras ao longo de toda a rua na noite de São João, onde se esconjuravam todos os bruxedos, feitiços e maus olhados da rua, mesmo os do alfaiate Lavanca, boa pessoa mas tido por lobisomem;
  • os gigantescos papagaios lançados ao vento da agra, feitos de lençóis ou brancos sacos de farinha de bordo, cosidos e puxados por marinheiros com saudades do mar, como se quisessem contrariar a corrida das nuvens que lhes traziam recados do largo;
  • os jogos de malha para treino de músculos  —  aguardando o tempo de alar bacalhaus no balanço do bote —  onde ao fim da tarde, os olhos suspensos do grande grupo ficavam piscos perante as picheiras esvaziadas na tasca do Ti Tomé Pascoal.

Enfim, homens e crianças, por certo crianças/homens, suspendendo aquela rua na paixão inocente do brincar.

***
A estória já vai longa neste abrir e fechar de olhos aparentemente tão diferentes.

E garanto-vos que era mesmo só aparência, porque mais tarde, quando certos desgostos se impunham, todos os olhos choravam de igual modo lágrimas salgadas ou amargas e a sua expressão carregava-se dos mesmos tons nocturnos.

Foi assim no naufrágio do "Infante de Sagres" ou no naufrágio das traineiras num temporal em Matosinhos e em tantos outros casos onde morreram companheiros, noticiados em dias tempestuosos, quando o ribombo das ondas na costa ecoava pela laguna e se fazia ouvir ao longe sobre a rua.

Nesses momentos, as cores do olhar diminuíam de intensidade e as mulheres cochilavam enroladas nos seus xailes negros de cadilhos tristonhos e a Rua Suspensa dos Olhos descia ao solo, onde o som dos tamancos arrastados na calçada estabelecia um ritmo mais consentâneo com a misericórdia desses dias.

Em setembro encontrei a Laide do Canto, na Costa Nova. Há anos que não a via. Emigrara para a América onde criou filhos e netos. Poucos minutos depois da euforia do encontro, percebi claramente que a Rua Suspensa dos Olhos ainda existia.

Existirá sempre, enquanto viver um par daqueles olhos com as cores do arco íris.


Costa Nova, 1 dezembro 2011

Fonte: Excertos do manuscrito , em pdf, de "A Rua Suspensa dos Olhos",  de Ábio de Lápara, que ajudei a rever em 2015, antes da execução gráfica. Recorri de momento ao manuscrito por não ter aqui à mão um exemplar do livro em papel.

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG) (**)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste anterior >  31 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27367: Manuscrito(s) (Luís Graça) (276): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte I : "Rua das Manhás, a morte levou tudo o que eu amava" 

(**) Último poste da série > 1 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27372: Manuscrito(s) (Luís Graça) (277): As andorinhas de Candoz na véspera da "grande viagem" para a África (subsariana, equatorial e até austral)

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27367: Manuscrito(s) (Luís Graça) (276): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte I: "Rua das Manhãs, a morte levou tudo o que eu amava"




Capa do livro "A Rua Suspensa dos Olhos" de Ábio de Lápara (edição de autor,  José A. Paradela, Aveiro, 2015, 164 pp.) (*)...

Ábio de Lápara é o pseudónimo literário de José António Bóia  Paradela.  Imagens: arquivo de LG + Matilde Henriques 


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




1. Zé António, meu mano:  hoje seria dia dos teus anos.  30 de outuro de 2025. Aliás, é dia dos teus anos. Oitenta e oito.  Um número redondo, uma capicua.  Em boa verdade, não morreste.  Deixaste apenas de aparecer, lá na nossa casa, como nos dias de cozido à portuguesa, feito pela "chef" Alice. Como tu adoravas o caldinho do cozido, a fumegar, já ao fim da tarde dos nossos sábados de eternidade,  com o saborzinho e o cheirinho da hortelã!

Foste-te embora, não encerraste a tua conta do Facebook. E a PAL -Planeamento e Arquitetura Lda, continua de porta aberta. O teu gabinete, a tua torre que não era de marfim. Eras um homem, cidadão, português, ilhavense, escritor, urbanista e arquiteto, profundamente ligado à terra (e ao mar).  Nunca foste ilha, mas arquipélago. Todos os que te ama(va)m continuam a "falar" contigo. Na esperança de que tu nos oiças. Falamos de ti entre nós. Que é também a nossa maneira de "falar" contigo. 

Ainda hoje, ao fim da tarde (os dias agora são mais curtos com o raio da hora de inverno), estivemos, eu, a Alice, a tua Matilde e o teu Jorge, a matar a nossa saudade de ti, à volta de um pastel de nata e de uma bica. Só faltou o "almirante", que anda lá pelo Mar do Norte, no seu porta-contentores, com esta invernia. Virá cá pelo Natal. Para ver a tua neta, que está cada vez mais linda. Ah!, vais ter outra neta (ou neto). Parabéns!... Eu também já tenho duas netas, é bom, dão-nos a ilusão de eternidade.

E, depois, continuas a ter, aqui, um lugar sob o poilão da Tabanca Grande. Foste marinheiro. Nunca foste à Guiné. Mas fizeste a tua tropa, a tua guerra. Foste à Terra Nova. Também foste "periquito", aliás "verde". Aos 17 anos, no teu dóri, nos bancos de pesca da Terra Nova. Na frota branca, a bacalhoeira (*). E também estiveste na marinha de guerra. Darias sempre um "mau infante" como eu.

Hoje ergo a taça, bebendo simbolicamente à tua memória, que continua viva, presente e quente entre os teus (família e amigos).

Lembrei-me dos teus livros. E deu-me uma saudade danada de reler a tua Rua Suspensa dos Olhos (**), que foi a rua da tua infância, em Alqueidão, Ílhavo. Nunca lá fui, a Alqueidão, que pena, tendo-te a ti como cicerone.  Perdi essa oportunidade única. Mas, pelo que me dizias, a tua rua já não existia. As ruas da nossa infància, quando crescemos ou mudamos de rua, de cidade, de país, deixam de existir.  As ruas da nossa infància morrem connosco  se não passarmos para o papel ou para o computador as nossas memórias. Ainda bem que o fizeste. São as tuas geografias emocionais. Mas também não  precisei de ir lá, à tua antiga rua da infância, bastou-me ler o teu livro. 

Todos temos, tivemos,  uma rua da  infância. Imagino que o teu Alqueidão era o da gente humilde, que nasceu com o ADN do mar por brasão. Quando eu te visitava, em agosto, a caminho de Candoz,  era na burguesa Costa Nova. Conheço mal a tua Ílhavo. A última vez que lá estive foi no dia da tua despedida da Terra da Alegria.

O jornalista Viriato Teles, também ele ilhavense, que fez em 2015 a apresentação do teu livro, na terra de ambos, sessão que eu perdi por qualquer razão de agenda, escreveu então o seguinte, sob o título "Os olhos da nossa infància" (excertos reproduzidos aqui com a devida vénia):

(...) Eu não conheci 'A Rua Suspensa dos Olhos',  tal e qual ela como nos é contada neste livro. Nasci uns anitos depois do Zé António, e do Ábio, e por isso já não vi o empedrado nem os poiais em frente das casas de Alqueidão. 

Mas o lugar onde brincou o Zé António é o mesmo onde, anos depois, eu passei muitos dos meus dias — e sobretudo das minhas noites — da adolescência. Pela simples razão de que era em Alqueidão que moravam alguns dos meus melhores amigos, e isso fazia de mim um passeante regular da rua.

Além disso, Alqueidão desembocava no esteiro da Malhada, que nessa altura era o melhor lugar do mundo (...)

(...) E muito daquilo que se passava na Rua Suspensa dos Olhos,  do Ábio de Lápara, passava-se de modo semelhante na Rua da Capela da minha infância. Além de que — e essa é seguramente outra semelhança que existe entre nós — no meu tempo como no dele, a infância vivia-se muito na rua e a partir da rua. Paradoxalmente, nessa época em que a liberdade era, em Portugal, um anseio longínquo e difícil de concretizar, a vida dos miúdos como nós era muito mais livre do que foi a dos nossos filhos.

A rua era o nosso pátio, a nossa casa, o nosso mundo. E a nossa escola, também. (...)

(...) Naqueles tempos em que as crianças vinham da Feira dos Treze pela mão da Dona Alicinha (que "não tinha filhos pois os dava a toda a gente" e que nos ajudou a ambos a vir ao mundo), Ílhavo era muito diferente do que é hoje. 

Nas nossas infâncias, Ílhavo era uma vila, ainda essencialmente ligada ao mar e à pesca longínqua da Terra Nova, e isso modelou inevitavelmente a nossa forma de estar e de sentir: aquele modo de ser meio agreste que nos caracteriza e que se revela nos jeitos e nos trejeitos, no linguajar, na maneira como falamos uns com os outros — e uns dos outros, também.

Não me custa dar razão a quem nos define como sendo uma gente pouco dada a cortesias: afinal, a 'alma ilhavense' moldou-se nos mares do fim do mundo, em meses de solidão e frio glacial, onde pairava sempre o sopro da morte, à espreita em cada vaga. Isto no que aos homens diz respeito. Quanto às mulheres, forçadas a assumir o comando da vida em terra, desenvolveram um forte sentido matriarcal — que se mantém, para o bem e para o mal. (...)

Recordo aqui o que te escrevi e disse, na na minha oração fúnebre, em 23 de fevereiro de 2023, na igreja matriz de Ílhavo:

(...) Ah!, quanto humanidade, ternura, inocência, traquinice, generosidade e poesia havia na tua rua suspensa dos olhos...

Ilhéu, lhavense, filho da terra e do mar, evocas e descreves com enorme ternura e talento a rua onde nasceste e cresceste. E das figuras humanas que marcaram a tua memória e o teu imaginário, não posso deixar de citar o teu pai, marinheiro aos 12 anos, figura de referência na tua vida, sempre ausente e sempre presente, e que gostava de dizer: “O mundo todo não vale o meu lar”…

Tendo tu sido criado no matriarcado, cercado de mulheres e dos seus fantasmas e das suas recordações, fizeste, no entanto, da figura do teu pai a mais bela evocação na tua narrativa ilhavense: “Estávamos todos em casa, isto é, ele não estava no mar, que é como quem diz, sabe-se lá onde”… (...)


LG | Alfragide, 30 de outubro de 2025, 23.00





Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos" - Parte I: "Rua das Manhãs, a morte levou tudo o que eu amava"

por Ábio de Lápara / José António Paradela 
(1937-2023)



Rua das Manhãs
A morte sabia
quem ali morava...
Rua das Manhãs
a morte levou
tudo o que eu amava...


Raul de Carvalho (1920-1984)


(...) Eu, criatura inventada à imagem e semelhança de Deus, fui fabricado em Campo de Ourique. Era o que dizia a minha mãe, casada com um marinheiro nos idos de 35.

Como cada um fica indelevelmente marcado pelo tempo e pelo espaço onde foi concebido, dizem, tive de aceitar logo,  nesse transe, o maldito signo do Escorpião.

Do mesmo modo, assente o sítio da batalha cujo nome, apesar da discórdia, ainda hoje é considerado o locus onde a divindade assinalou o desígnio nacional, o meu brasão só poderia ser o das cinco chagas, para os mais religiosos, ou dos cinco castelos mouros para os mais dados às coisas da guerra.

Isso acarretou alguns amargos de boca no meio familiar, onde um avô republicano casou em primeiras núpcias com uma prima católica, que passou a ser minha avó. E assim tive de herdar, ainda antes de nascer, o nome dele e o carinho extremoso dela.

Um pouco mais tarde, fizeram-me constar que fui comprado na Feira dos Treze, ali na Vista Alegre, sempre perseguido por simbolismos estranhos, e levado para a rua de Alqueidão pela mão de uma Alice que vivia do outro lado do espelho. Não tinha filhos pois que os dava a toda a gente, e ficou conhecida pelo carinhoso diminutivo de Alicinha como nas estórias de duendes e feiticeiras, já que as suas mãos exsudavam milagres em cada parto.

Terá sido este o meu caso, pois as primeiras recordações de que disponho, dão comigo a viver já nessa rua fantástica, tal como vou descrever.  (...)

***

(...) A minha casa tinha porta para ela, que nesse tempo era empedrada com calhau rolado de média dimensão, digamos... do tamanho de padas de Vale d' Ílhavo, que geravam um ruído forte sob os rodados metálicos das carroças de bois e torciam os pés às mulheres que usavam tamancos.

Para ser breve, direi que tirando as casas, de tudo o que hoje lá está, nada existia. Pois é! Pensem no que quiserem... Nada disso existia! Em contrapartida, existiam longos poiais na frente das casas que serviam de bancos onde se sentava a vasta comunidade lá da rua.

Ali, as crianças brincavam, as mulheres ratavam nos casacos de quem passava e os velhos enrolavam cigarros de tabaco desfiado que acendiam nas beatas uns dos outros.

E o que se passava durante o dia, se repetia à noite quando o tempo estava ameno, sob a luz soturna de uma lâmpada eléctrica, adorada pelos morcegos, existente num poste metálico junto à loja do ti Tomé Pascoal !

Aí vivi durante os anos da minha tenra infância e alguns da juventude.

Digamos que era uma rua divertida onde não se vislumbrava nenhuma crise de natalidade, talvez porque a Feira dos Treze ficasse a curta distância e as crianças fossem baratas, ou porque a fome tocasse igualmente a todos quer fossem poucos quer fossem muitos e por isso, nascer era relativamente indiferente.

A verdade é que não faltavam amigos para brincar nem escaramuças entre as mães para nos divertirmos. Os pais, - semente intermitente - como habitualmente, estavam ausentes no mar, muito longe, bem perto das latitudes polares. (...)

***

(...) Os Cagulas eram quatro ou cinco filhos de um cabo do exército, homem aprumado, de frágil figura e aguçado bigode, envergando farda de caqui e capote de burel cinzento. Um justo bivaque, ligeiramente descaído sobre o lado esquerdo, deixava entrever uma madeixa negra encaracolada.

Recordo-o entrando no beco, a cumprimentar os vizinhos com um gesto militar, elevando a mão direita até à orelha do mesmo lado, sem lhes dirigir muitas palavras.

Um militar de pequena patente não ganhava para ter uma família tão grande! Assim, para matar a fome aos filhos, distribuía-lhes uma tarefa ao longo dos dias da semana: dois a dois, cajado e lata ferrugenta na mão, palmilhavam a pé os cinco quilómetros que separavam a sua casa do quartel, em Aveiro, de onde regressavam com ela enfiada no cajado, plena de sopa de feijão com massa e alguns gorgulhos flutuantes.

Acontece que por ironia do meu fraco apetite, adorava aquela sopa! Assim a minha mãe via-se obrigada a promover trocas para satisfazer o meu desejo que, no fim de contas, mais não era do que o prazer de comer na companhia daqueles amigos cujas estórias e aventuras me fascinavam.

Como a sopa já chegava fria, por vezes o prodígio consistia em fazer lume na sua lareira rasa, numa cozinha onde nem sempre existiam fósforos. Então era necessário pedir uma brasa a algum vizinho e, a partir dela, soprar até pegar o fogo à lenha ainda verde, colhida no mato! Lentamente, o lume ia crescendo sob a lata pendurada de um gancho de ferro na chaminé, e o cheiro que exalava ia aumentando a saliva nas nossas bocas: um manjar!

Na penumbra daquele espaço, as estórias tinham já uma aura de mistério ou de terror, associado à luz bruxuleante e ao fumo do pinho verde e cheiroso. E lá vinham os latidos nocturnos dos cães, supostos lobisomens, e as gigantescas gibóias de fatal abraço, vencidas por um pau afiado em ambas as extremidades, seguro pela mão forte do João Cagula, que depois me explicava como ganhava dinheiro com a gordura extraída, para fabricar o unguento que se vendia na Feira dos Treze! A banha de cobra, que curava sarnas, pruridos, eczemas e muitas coisas mais! (...)

***

(... ) Por esse tempo, ao fundo da rua, residiu intermitente, uma das mais divertidas figuras que a Rua Suspensa dos Olhos teve durante anos, inflamando a imaginação dos olhos acabados de nascer: o Ramon.

Loiro, ultra-penteado com azeite, garboso de faena acabada, montava um burro do seu clã, rua acima , desde o pequeno terreiro junto à fonte dos Bastos - a que os folcloristas da outra rua chamaram em tempos Fonte dos Amores, sem que lá tenham amado - até ao Largo da Senhora, que na outra rua tinha um nome já apagado, na tabuleta oval, de esmalte antigo.

Aí, os olhos vivos, sedentos de estranheza, o inquiriam sobre a vida dos ciganos e se deliciavam com o prodígio que era poder ser loiro e simultaneamente cigano, viver numa tenda de pano sujo e ser dono de um transporte individual de quatro patas.

E, para além do mais, ser feliz nas amizades que se prolongavam no tempo - embora interrompidas pela transumância - e nos permitiam cavalgadas heróicas no lombo despido daquele burro!

Porque na outra rua, os ciganos só podiam ser morenos, vendiam cestos, liam a sina nas mãos das solteironas e, por sua causa, era necessário montar vigilância nos quintais... Se isto não é um prodígio, digam-me lá onde é que eles existem! (...)

***

(...) Muitos donos de olhos atrás citados são personagens de estórias pessoais coladas na rua suspensa, evitando a sua queda. Mas o mais importante para o equilíbrio interno de todos eles, era o grupo que permitia aferir a certeza dos seus juízos: o grupo dos loucos daquela rua.

Ficam estes para outra ocasião, porque levam algum tempo a exumar. Os seus nomes são eternos porque estão sentados á direita do Altíssimo: Chiquinho Maneta,  o Ester, Chico Rádio, António Espiga...

Contudo, lembrei-me agora de outro personagem importante lá da rua, figura indesculpavelmente esquecida.

Era um homem de estatura muito pequena, ligeiramente encurvado e com uma perna mais curta que lhe acentuava aquele defeito quando se deslocava. Andava sempre com uma caixa de madeira suspensa do ombro por uma correia de couro, onde transportava os instrumentos do seu ofício.

Chamavam-lhe Manéuzinho Fazenda, e percorria a rua de uma ponta à outra cortando cabelos e escanhoando faces barbudas.

Barbeiro ambulante, utilizava os restantes atafais dos clientes para proceder à depilatória função.

Tive a pouca sorte de o ter como barbeiro nos primeiros tempos da vida. Era nosso vizinho e uma criatura muito afável, mas cheirava a aguardente e a tabaco de séculos anteriores.

As ferramentas de que dispunha há muito que deviam ter sido reformadas! A máquina de cortar tinha falta de dentes e arrepanhava-me o cabelo, já de si finíssimo como seda, cujo eriçado destruía os pentes à minha mãe e o meu couro cabeludo no esforço do puxão.

Mas o pior de tudo era a navalha de barbear para rapar o pelo sobrante da nuca! Os meus lancinantes gritos não paravam, apesar das constantes tentativas que ele fazia para afiar e assentar o fio da lâmina maldita!

E culminavam quando ele perguntava à minha mãe:

 
  Oh Rosinha, tens álcool para lhe desinfectar o pescoço?

Durante anos pedi a Deus, nas minhas rezas nocturnas, um milagre que me libertasse dele. Sendo Deus, já nesse tempo, bastante velho e surdo, esse prodígio só aconteceu mais tarde, quando o meu pai me encomendou ao senhor Leopoldo, barbeiro com ferramentas de outra afinação, barbearia selecta, bem no coração da vila.

Colocado um pequeno assento sobre a cadeira dos adultos, ali me sentava eu, embrulhado numa enorme toalha branca apertada no pescoço, frente ao espelho que me ia devolvendo as imagens de capitães já barbeados, que prolongavam as conversas atrás da minha cadeira, discutindo assuntos de barcos e mares encapelados, quando não dizendo mal do perfume ou do cheiro a mofo da toalha com que Leopoldo lhes secara a cara... E esse gozo prolongava-se pela manhã e pela tarde, à medida que saíam uns e entravam outros. (..:)

Fonte: Excertos do manuscrito , em pdf, de "A Rua Suspensa dos Olhos",  de Ábio de Lápara, que ajudei a rever em 2015, antes da execução gráfica. Recorri de momento ao manuscrito por não aqui à mão um exemplar do livro em papel.

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de;


30 de dezembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15554: Notas de leitura (792): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara (pseudónimo literário de José A. Paradela): reprodução do capítulo 7 com a descrição da viagem de seis meses, aos 17 anos, em 1955, aos bancos de pesca do bacalhau: III (e última) parte

(**) Último poste da série  > 11 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27307: Manuscrito(s) (Luís Graça) (275): 50 pequenas coisas que mudaram em 50 anos no Portugal sacro-profano que eram as terras de Candoz, no Marco de Canveses, em Entre-Douro-e-Minho